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Binha Martins / Arte Ritualística

Conto

Raízes_b

O conto abaixo, foi desenvolvido para participar da antologia "Labirintos da Escuridão"... mas não foi selecionado para constar no mesmo.

Publico aqui para quem desejar "experimentar" dessa leitura. Boa viagem!!!

R A Í Z E S   B

Eu sei que neste final de tarde acontecerá um evento na praça... não sei que tipo de evento, mas sei que acontecerá. Sentei em um banco para esperar. O céu escureceu cinzento...
            Sabe quando você sente que algo está acontecendo nas suas costas? Olhei para trás e vi um alvoroço na garagem da Cida. A mãe dela é muito agitada, principalmente em ocasiões especiais. A mãe da Cida é costureira e ela fez os vestidos das meninas que vão se apresentar. Vestidos bordos com babados brancos bufantes no peito. Vestidos longos... Tão longos que eram muito maiores que as meninas.
            O estranho é que no momento da apresentação eu já sabia como ia ser; não havia surpresas. As meninas começaram a caminhar em direção à praça. Conforme elas andavam, seus pés saiam do chão fazendo com que seus vestidos os cobrissem e a figura delas se alongava cada vez mais.
            Eu estava ao lado da fileira das meninas, que prosseguiam de forma fantasmagórica. A última menina da fileira era uma garota de aproximadamente 10 anos e bem loirinha. Eu a chamei e falei algo em seu ouvido. Algo muito importante, mas que na seqüência esqueci, como num sonho que você se esforça para se lembrar de algo que dificilmente conseguirá. De novo a chamei e disse que se ela não esquecesse o que falei jamais iria conseguir tirar seus pés do chão novamente. Ficamos confusas. As outras meninas prosseguiam seguindo Cida que já estava bem alta, alongada por seu vestido, enquanto a garotinha ficava para trás olhando para mim com ar de pavor em seu semblante.
            Outro dia nascia, e um novo evento à vista. Mas hoje eu estava animada, pois a festa era na escola. Festa relacionada a tomates, mas isso não tinha importância... importante é que ia ver muitos amigos.
            Fui para a escola, passeei e conversei com alguns colegas. Nada de interessante... Fui para a cantina e estranhei, pois estava fechada. Fiquei um pouco parada, sem ter o que fazer e olhei para as salas que ficavam em frente à cantina, quando reparei num vão, como um beco para um outro lugar. Entrei no vão e saí numa rua onde já era noite... noite de verão.
Apenas pensei que aquela rua talvez fosse a Rua Lapa (uma rua que não conhecia, mas que direto ouvia alguém falar sobre ela). 
Andei alguns passos e o vão sumiu, fiquei perdida e desesperada... tentei me acalmar, não sabia realmente onde estava. Vi uma casa em que o portão estava aberto, fui para lá pedir ajuda. Na garagem tinha um pequenino cão, branquinho e olhos vermelhos, aparentemente inofensivo. Ele abanava o rabo como se me convidasse para entrar. Fui entrando e quando abri a porta da sala vi alguns bonecos vodus espalhados pelo chão, alguns banhados de sangue, outros com agulhas e alfinetes espetados. Apesar da cena horrível, eu não sentia nada. Comecei a andar pela casa e ao lado da sala principal, havia uma salinha com um vodu em tamanho natural, que estava enforcado. Ele era negro, bem senhor, usava chapéu e terno branco. Passei pela cozinha e fui até a lavanderia. Lá tinha um cão enorme e furioso. Havia um risco branco no chão (talvez de sal) e eu sabia que ele não poderia me atacar, pois não poderia passar da faixa branca. Mas ele latia alto e talvez achasse que eu poderia atravessar a faixa. De repente senti um lapso de desespero, é como se o latido tivesse me acordado para analisar todo aquele cenário cheio de maldade e desequilíbrio. Saí rapidamente da casa aos prantos. O mais estranho é que enquanto eu estava dentro da casa, todo aquele cenário parecia não me atingir...
            Na rua, vi um carro que se aproximou e apontou para entrar na garagem da casa ao lado. Uma mulher desceu para abrir o portão. Uma mulher com cabelos longos e um longo brinco na orelha esquerda. Usava saia indiana e seu rosto eu não conseguia ver... como se uma nuvem negra o tampasse.
            Pedi desesperadamente a ela que me deixasse passar a noite em sua casa, pois estava perdida. Ela começou a gritar, perguntando se eu estava na casa ao lado, pois se tratava de uma casa extremamente negativa. Por fim, quando tudo ficou mais calmo, ela cedeu e de repente estava dia.
            A casa dela tinha uma construção esquisita. Na lateral da casa, tinha uma escada de cimento que levava a laje. Subi e quando cheguei lá em cima, a vi de costas, sentada em uma mesa redonda, consultando cartas para um homem de sobrancelhas bem grossas. No muro que ligava a casa ao lado, estava um rapaz nos olhando... ele também tinha sobrancelhas muito grossas. E sentado na ponta da laje, estava um garoto avistando a rua... Sentei ao seu lado e perguntei sobre como os cachorros da casa ao lado sobreviviam já que a casa estava sem moradores. O garoto afirmou que não tinham cachorros naquela casa. Perguntei a ele que rua era aquela... Ele respondeu: Rua Lapa.
            No dia seguinte, recomposta, fui novamente a Rua Lapa. Olhei para as duas casas e nada de mais. A casa supostamente da mulher estava em silêncio e a casa ao lado estava com placa de venda/aluga.
            Passaram-se alguns meses, e o Gordo que sempre usava a casa vazia em frente à sua para festas de adolescentes; desta vez emprestou a casa para uma pessoa que eu não conhecia. Aquela casa estava a cada dia se acabando, devido à bagunça dos garotos. E por isso também achei estranho alguém querer alugá-la para uma festa de gala.
            Fui convidada. Mas não fui com o traje apropriado. Vestia jeans.
            Entrei na casa... todos estavam vestindo preto, com champagne nas mãos e sorrindo. Num canto, conversando com um homem estava a mulher que me acolheu naquela noite na Rua Lapa. Vi que ela me viu... fui andar pela casa... as pessoas pareciam muito umas com as outras, sorrindo de forma ensaiada, mas satisfeitas. Passei por outra sala e por fim vi que o único cômodo que não estava sendo usado para a festa, era o quarto dos fundos; a porta estava fechada. Instintivamente abri. Estava super iluminado, com rosas no chão e uma mulher nua, amarrada e ensangüentada, por causa de alguns ferimentos/cortes. Fiquei desesperada. Desamarrei-a e saímos rapidamente.
            A festa se desequilibrou... os sorrisos desapareceram...
            Nesta época, eu morava com a Adriana, nos fundos de uma casa. Lugar bem simples. Dois cômodos: cozinha e quarto.
            Ela estava de saída e me avisou que alguém me chamava. Ao sair, disse para que eu guardasse as três facas que estavam na pia... poderia ser perigoso.
            Eu estava bem tranqüila e curiosa. Não lembrava de ninguém em especial. Fui atender... mas quando eu estava com a intenção de ir até o portão, ao abrir a porta da casa, a mulher da Rua Lapa já estava ali. Me atacou com suas unhas enormes. Me empurrou na parede me sufocando. Não tive opção... peguei uma das facas e enfiei em um dos seus supostos olhos... enfiei a faca diversas vezes e mesmo assim não conseguia ver seu rosto...
            ... acordei assustada, com o pescoço todo arranhado. Contei para minha mãe que havia sonhado com uma pessoa que me enforcava e unhava... e como eu insisti para que acreditasse que se tratava de algo sério, ela chamou a D.Merinda, que me levou num senhor na favela da Rua Camargo. Fui benzida.
            Essa história ficou na minha cabeça por bastante tempo... Numa tarde de sol baixo, sentada na praça com a Viviam resolvi contar a ela... ao fim da história, estava passando na calçada a Rosa, uma ex-namorada de um tio meu.
            Rosa era uma mulher loira, gorda e espirituosa. Eu gostava muito dela, mas ela tinha um histórico pra lá de duvidoso. Usou muitas drogas quando namorava meu tio e quando eles se separaram, ela não aceitou e teve diversos surtos por anos a fio. Parecia que naquele momento, ela já estava recuperada das drogas e do relacionamento. Estava atuando como enfermeira e parecia tranqüila.
            Ela ficou um pouco conosco e também disse a ela do que estávamos conversando... Ela ficou agitada. Disse que conhecia a mulher sem rosto. Disse que era "sua mulher de frente". Nos convenceu a ir a casa dela e lá nos mostrou muitas e muitas guias que ela usava conforme instruções da mulher sem rosto. Inclusive, ela citou um detalhe, falou que a mulher só tinha a orelha esquerda e que nela usava um brinco enorme; que quando fez "a aliança" com a mulher sem rosto ela passou a não poder usar brinco na orelha direita... e ainda disse que era para não ter o risco de cair.
            Saímos de lá tensas e rindo ao mesmo tempo...
            Nesta época, minha mãe freqüentava um terreiro na rua de baixo...
            Numa noite, no terreiro, minha mãe recebeu uma mensagem, dizendo que sua filha mais velha havia ganhado um presente logo após o nascimento que estava atrapalhando energicamente e que este presente deveria ser destruído e jogado em água corrente.
            Minha mãe chegou em casa e nos contou... nem lembrávamos se ainda havia alguma coisa de quando eu era pequena... e começamos a procurar, procurar, procurar... Achamos um travesseirinho xadrez (azul/branco)... minha mãe nem sabia quem havia
me presenteado com aquele travesseiro. Ela rasgou o travesseiro e dentro havia um emaranhado de penas negras e linhas negras e vermelhas... tudo embolado... o travesseiro foi jogado em água corrente.
            Pelo menos 18 anos se passaram...
            Estou coordenando um grupo de estudos junto ao Marcus Motta, onde conheci Maribel. Uma mulher intuitiva e encantadora.
            Teve um encontro do grupo que estendemos a conversar sobre diversos assuntos... e desenterrei a história da mulher sem rosto para contar... Instantaneamente ela disse:
            -Foi essa tal de Rosa que te presenteou com o travesseiro!!!
            Os porquês podem ser vários! Vários porquês vazios...
            Contei para minha mãe... e depois de um leve pensar, ela não tirou a possibilidade de ser... e achamos que a história havia sido resolvida...
            3 meses se passaram...
            Estava expondo os produtos da minha loja no Viver Alternativo. O ambiente estava com um clima ótimo!!!
            Conheci um rapaz que se aproximou para perguntar sobre alguns livros... ficamos conversando sobre a prática pagã...
            Esse rapaz estava tenso e quando eu menos esperava, ele disse que se aproximou para conversar sobre outra coisa... sobre seus sonhos... disse que estava já algum tempo fazendo um tratamento com a Raquel Frota.
            Eu quis saber...
            Ele contou que em seus sonhos ele é uma pessoa com muita carência materna... e que em diversas situações sonhava com duas mulheres... Teve um em especial, que uma das mulheres lhe ofereceu um manto, que quando ele fechava, o símbolo do pentagrama formava em seu peito... ele prontamente aceitou. Na seqüência, a outra mulher (que ele só via de perfil), lhe ofereceu uma espada... que ele negou imediatamente. Neste momento, quando ele percebeu que iria ser atacado pela própria espada que lhe havia sido oferecida; rapidamente fechou o manto, onde o pentagrama o protegeu.
            E por fim, ele comentou que quando entrou no Viver Alternativo não sabia da onde me conhecia e que ficou com aquela sensação... e se pôs a pensar... Virei de perfil e ele me reconheceu imediatamente... no sonho dele… fui eu que tentei machucá-lo com a espada... Mas porque?
            Enquanto ele falava, minhas pernas estavam moles, pois a única certeza que tive é que a mulher sem rosto era eu mesma... mas eu não compreendia o porque daquela agressividade toda comigo mesma.
            Fiquei tão zonza... mas me contive.
            Depois a Raquel me ajudou, trabalhando, me purificando e fiquei melhor.
            A conclusão que cheguei é que meu lado visceral está em guerra com meu lado pacífico... o equilíbrio é o objetivo, que provavelmente precisarei de mais vidas para alcançá-lo.

Binha Martins